Volvo 480 Turbo (1991)

 

Os meus Volvos e eu

 

Era o primeiro carro.

Com o seu dinheiro,

era o primeiro.

Outros já tivera, oferecidos.

Mas agora era diferente.

Era o primeiro mesmo seu!

O dinheiro, esse, não era muito.

Infelizmente.

Por isso, fez contas e refez.

E tornou a refazer.

E do prazo.

E do financiamento.

E decidiu o pagamento.

E do carro afinal?

Sim, do carro,

não é do carro que aqui se trata?

Há muito estava escolhido.

Volvo!

Tinha que ser um Volvo.

Só podia ser um Volvo, era antigo o sonho... .

Um 400.

Um 440.

Um 440 GL.

Novinho em folha!

A estrear!

Preto.

Metalizado e nacarado.

E com tecto de abrir.

E ar condicionado.

E faróis de nevoeiro.

E tudo!

Lindo... de morrer.

E fez-se o casamento.

Como todos os casamentos:

90% de paixão e 10% de razão.

Mas fez-se. E durou.

5 anos, durou ele.

5 anos de intensa relação.

Lisboa, Leiria, Porto, Braga, Barcelos, Penafiel, Aveiro, Setúbal, Faro, Castelo Branco, Alcains, Fundão, Covilhã, Guarda, Viana do Castelo, Gerês, Santiago do Cacém, Sines, Évora, Beja, Sagres, Santarém, Fátima, Elvas,Caminha.

E Madrid, Torrevieja, Alicante, Málaga, Gibraltar, Sevilha, Huelva, Cádiz, Ayamonte, Badajoz.

E sabe-se lá mais o quê e onde.

Viagens alegres, de obrigação, de férias, de família, de trabalho, tristes, de tudo um pouco.

E a mais triste de todas as viagens, também... .

Um casamento, afinal.

Para o bem e para o mal.

Apoios lombares partidos, mais que muitos.

Juntas de carburador várias, etc. e tal.

A acabar em “al” e a fazer verso, como tal!

Mas tudo chega ao fim, é fatal.

E desfez-se o casamento.

Tinha que ser, era altura.

Com pena, fora bom.

Fora mesmo muito bom.

E outros casamentos houve, depois desse.

Lancia, Alfa Romeo, Land Rover, Jeep.

E até dos casamentos verdadeiros outro fez...

que o primeiro correu mal, coisas da vida.

Mas, paciente e persistente,

escondido e à espera,

o bichinho do primeiro,

do Volvo pois é claro, estava lá.

E lá ficou... .

A vida, essa, seguiu em frente.

Voltas deu e tornou a dar.

Baralhou, partiu e deu.

E fez macetes.

E em certa altura fez batota, ela, a vida.

Batota maliciosa e descarada.

Batota batoteira de verdade.

E foi no meio da batota que parou.

Pensou, olhou à volta e decidiu.

Puxou o Ás de trunfo.

Ganhou a vaza, recolheu as fichas.

As da vida e só essas.

Trocou-lhe as voltas.

Ah!, trocou, pois trocou.

As voltas da vida, à vida.

E mudou, assim, de vida e de repente.

E o bichinho?

Esse aproveitou e acordou.

Paciente e persistente,

acordou.

E, suave mas firmemente:

Olá! Cá estou eu!

Outra vez?

Pensou.

Voltou a pensar.

Pensou de novo.

E se bem pensou, melhor o fez.

Somou.

Quatro e quatro... são oito, pois então.

E o zero?

Deixa estar.

E o primeiro?

Também fica, não se tira.

Vá lá a ver, sai o do meio que já se juntou ao primeiro.

Quatro – oito – zero.

Quatro – oito – zero?

Quatrocentos e oitenta.

Quatrocentos e oitenta, ora bem!

Venha ele porque esperas?

Pela cor que o quero branco.

E o branco apareceu.

Pela tarde em dia 7,

(a 7 de outro ano nasceu também uma filha...).

E com 18 na matrícula.

(Emancipado, independente).

E o 59 o que lhe dizes?

Qual, o da matrícula ou aquele em que nasci?

São e escorreito...

Com tantos números a empurrar...

E branco, ainda por cima...,

faça-se lá o casamento!

E fez-se o casamento.

E aí está, vivo e forte.

E bonito e caprichoso.

E assim segue a história

em boa paz e harmonia.

Segue, não acaba.

Que estes novos casamentos

são Amores para durar.

 

Francisco Sismeiro

Setembro de 2005